Marcos Silva
Sábado, 06 de agosto de 2016, 00:30 h - Atualizado em 06/08, 12:11 h

Para ler, ver, ouvir e pensar - Chega de Saudade

O disco que foi o marco da moderna música brasileira


Marcos Silva: Cultura


Foto: Divulgação.

Se a MPB tivesse um marco de importância este seria o disco Chega de Saudade de 1959. O disco é uma experiência impar da música brasileira. Interpretação de João Gilberto,  arranjos e produção de  Tom Jobim, influências mais que notadas de Vinícius de Moraes, magnífico repertório além do grande incentivo de Dorival Caymmi, transformaram o disco em um verdadeiro mapa musical para se entender o que era, o que mudava, e no que se tornou a MPB.

Foi o Tom que insistiu no registro inconfundível da voz particularmente diferente do João. Tom já era conhecido como exímio pianista desde 1950 no circuito de Copacabana e desde 1952, era o arranjador da gravadora Continental e depois Odeon,  suas composições já eram conhecidas nas vozes populares de Lucio Alves e Dick Farney ( Tereza na Praia parceria com Billy Blanco), Dolores Duran ( Se é por Falta de Adeus), Elizeth Cardoso, e  principalmente ( o que mais o credenciava a época) produziu e arranjou as canções da peça Orfeu da Conceição e posteriormente para o filme Orfeu Negro, o grande sucesso da dramaturgia brasileira da década de 50 capitaneada por Vinícius de Moraes.

João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, baiano de Juazeiro (1931) era uma figura meio marginal (no sentido de estar a margem) do cenário musical da época, chegou ao Rio em 1950 para integrar o grupo Garotos da Lua que teve certo destaque em rádio e chegou até a gravar em 78rpm mais não passou disto. Era fã de Orlando Silva e tinha um padrão vocal igual. Em 1953 a cantora Marisa Gata Mansa gravou sua primeira composição em parceria com Russo do Pandeiro. Participou de alguns shows juntamente com Grande Otelo, Ataulfo Alves, Luiz Bonfá e outros artistas da época. A transformação de sua estética musical aconteceu porém um pouco depois e fora de toda esta influência. Primeiramente em Porto Alegre para onde foi em 1955, e permaneceu por pouco menos de um ano, e teve oportunidade de estudar com Armando Albuquerque (pianista, compositor e musicólogo), e depois mais alguns meses em Diamantina na casa de sua irmã. O pequeno "exílio" parece ter feito muito bem ao ainda garoto que retornou ao Rio com uma concepção e abordagem musical bem diferente. Uma batida diferente. como falavam, e um jeito de cantar bem baixinho que cabia dentro da sonoridade e harmonia do violão. 


Na efervescência jovem e criativa que se apresentava o RJ no final da década de 50 a novidade do João agradou, e muito, principalmente porque a harmonia musical estava se tornando muito mais complexa para aqueles “garotos” e a nova forma de cantar dava muito espaço para invenções harmônicas, com acordes mais complexos, e que necessitavam serem bem ouvidos.


E não agradava somente aos jovens, é claro. Quem mandava no pedaço a época era Caymmi que já era conhecido internacionalmente desde 1939  através do sucesso de Carmen Miranda que o tinha em seu repertório. Foi Caymmi que alertou a Odeon sobre o outro baiano “ olha vocês tem que ouvir este garoto João Gilberto, ele tem uma batida muito boa”, e que assina (através de P.S.) solidário a apresentação da contra capa do disco. O disco traz ainda a grande canção de Dorival: Rosa Morena.
 

Foto: Divulgação.

Chega de Saudade é o primeiro trabalho completo (LP) do João, mas a aproximação com Tom e Vinícius já vinha de algum tempo, desde o disco Canção do Amor Demais de Elizeth Cardoso (musicas de Tom e Vinicus) do qual participou em 1957. O disco começou a ser elaborado em 1958 com a participação de Milton Banana (1935-1999), baterista nótavel e grande nome da música brasileira e internacional na percussão e mais  Aloysio de Oliveira (músico,cantor compositor- 1914/1995) que trabalhou toda a carreira de Carmen Miranda no exterior, na produção. O disco é na verdade uma condensação de tudo que se aspirava de moderno a época. Os arranjos elegantes e modernos de Tom Jobim, o balanço de milton Banana, toda a vibração e modernidade que o Rio de Janeiro representava como cidade cosmopolita e adorada internacionamente, os melhores músicos e compositores,  e a nova bossa de João Gilberto com uma  revolucionária forma de tocar violão com uma rítmica inovadora e voltada para o Jazz.  O disco foi lançado em LP em 1959, tendo sido mantido em catálogo desde o seu lançamento até 1990, por 31 anos consecutivos.


O repertório é outro sucesso a parte. Composto em parte por grandes compositores, referências até então como Caymmi ( Rosa Morena), Ary Barroso ( Morena Boca de ouro e Luxo só) e Vinicius ( Brigas Nunca Mais),  e em parte por novos e talentosos compositores como Carlos Lyra ( Maria Ninguém ), Lyra com parceria de Ronaldo Bôscoli ( Lobo Bobo e Saudade Fez um Samba), e o próprio João ( Ho-ba-la-la e Bim Bom).  Outra grande referência e homenagem do disco é ao samba, presente em todas as músicas e arranjos, mais  principalmente em  “Aos pés da Cruz” de Marino Pinto e Ze da Zilda. Mais o samba que o conjunto do disco apresenta é um samba com roupagem moderna e atual, para que todo o mundo pudesse conhecer e apreciar. E Ainda lança as bases de toda a moderna música contemporânea, não só brasileira porque influênciou o mundo, mais em especial em duas canções do repertório que se tornaram ícones: Chega de Saudades ( Tom e Vinicius) e Desafinado ( Tom e Newton  Mendonça).

 
A canção "Chega de Saudades" que se tornou uma referência própria é um samba já gravado anteriormente no disco de Elizeth de 1957 ( já com participação do violão do João Gilberto), mais o arranjo anterior era grandioso e antigo.  No novo trabalho parece que a letra se encontrou a seu verdadeiro lugar com os versos sussurrados  sobre os “beijinhos e carinhos sem ter fim” e o violão que envolve carinhosamente e protege a melodia. Todos os importantes nomes da música brasileira, vivos a época, citam a revolução que foi ouvir Chega de Saudade pela primeira vez e como isto influenciou seus trabalhos e a forma de ver a música “nova’ brasileira.

Tom Jobim escreveu na contra capa do disco: “João Gilberto é um baiano ”bossa nova” de vinte e sete anos. Em pouquíssimo tempo, influenciou uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. Nossa maior preocupação neste Long-Play é que Joãozinho não fosse atrapalhado por arranjos que tirassem sua liberdade, sua natural agilidade, sua maneira impessoal e intransferível de ser, em suma, sua espontaneidade. Nos arranjos contidos neste Long-Play Joãozinho participou ativamente, seus palpites e suas idéias estão todos ai. Quando Gilberto se acompanha o violão é ele, quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele. João Gilberto não subestima a sensibilidade do povo. Ele acredita que há sempre lugar para uma coisa nova diferente e pura – embora a primeira vista não pareça – poder se tornar, como dizem na linguagem especializada: altamente comercial. Porque o povo compreende o amor, as notas, a simplicidade e a sinceridade. Eu acredito em João Gilberto porque ele é simples, sincero e extraordinariamente musical.” E completa com um P.S. – Caymmi também acha.

Para ouvir com muita atenção e prazer: Chega de Saudade, o disco.

 

Marcos Silva colunista aos sábados -  email: Marcosgeovano@hotmail.com

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade do autor.

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